Rali das Camélias 2021: Primeiro Rali na primeira pessoa!
A concretização de uma experiência automobilística tão rica, não podia deixar de ser partilhada. Se é para partilhar, que se partilhe na primeira pessoa! O meu nome é Tiago Neves, o meu primeiro Rali foi o Rali das Camélias e nele criei memórias para a vida, fiz novos amigos e evolui a minha condução.
A aventura dos motores começou em miúdo, quando via com o meu pai as 24H Le Mans, Formula 1 e o Campeonato do mundo de Ralis … Quando ainda eram em canal aberto! (Bons tempos!) Mal aquele miúdo sabia que um dia ia poder realizar o seu sonho de competir nos automóveis!

Comecei por conduzir as moto 4 de um amigo e a alugar karts no kartódromo de Odivelas. Todo o dinheiro que recebia no Natal ou nos anos, estava destinado a satisfazer a paixão pelos motores. Falava com o Sr. João do Kartódromo de Odivelas e lá ia eu acelerar 30 minutos. Pobres dos meus colegas de escola que “levavam comigo” dias e dias a falar sobre aquelas voltas ao “Quintal de Odivelas”.
Comprei o meu primeiro kart quando comecei a trabalhar e sempre procurei formas de competir. Infelizmente, cheguei sempre à conclusão que não estava ao alcance das minhas possibilidades. Não desisti do meu sonho e continuei a “procurar” desenvolver a minha condução e criar condições para poder um dia vir a ser piloto. (Ou condutor com fato)

Aos 24 comprei um automóvel modesto para preparar para competição. Não precisava de ser rápido! Se pensavam que sim, rapidamente perceberam que eu tinha errado redondamente na escolha do carro (Mitsubishi Colt 1.3). Queria prepará-lo para competir no campeonato nacional de velocidade Legends, pois sempre gostei dos circuitos! Depressa percebi que era um sonho inalcançável devido às inscrições avultadas, distância entre provas e valor das licenças, acrescendo a todas as obrigatoriedades no que toca a pneus específicos, etc. Sabendo que ia andar a “estorvar” nos circuitos, decidi começar a preparar o meu Mitsubishi para Ralis Regionais.
O primeiro desafio foi ler os inúmeros documentos referentes ao material necessário para preparar um automóvel sob a regras e homologações da FPAK. Felizmente, tive ao meu lado o Sandro Carvalho, o Jorge Vicente e alguns amigos deste meio que me iam dando umas luzes acerca do que era obrigatório ter no automóvel. Sinceramente, é difícil para um leigo perceber a quantidade de documentos e anexos disponíveis no site da FPAK, simplesmente parece que não têm fim.

Felizmente, também houve um membro da FPAK chamado Eliseu Valente, que me soube aconselhar relativamente ao passaporte técnico e ao pedido de matricula de competição. É graças a esta matricula que os Ralis não se tornam tão dispendiosos. Apesar das burocracias, compensa pedir esta matricula de competição, visto que permite circular com o veículo na estrada para as provas, caso contrário, seriam mais umas centenas de euros em reboques.
Desafios da preparação de um automóvel superados, inscrevi-me no Rali das Camélias no final do ano passado! Foi adiado duas vezes e a ansiedade por correr ia aumentando! Vários meses depois, consegui finalmente participar no meu primeiro Rali!

A aventura não começou no arranque do Casino do Estoril, mas duas semanas antes, nos reconhecimentos! Como é que me preparei para os reconhecimentos? Comprei um caderno para o meu co-piloto, comprei post-it para marcar o volante como os pilotos profissionais e acedi ao instagram de um co-piloto bem conhecido para “copiar” as marcas do volante dele… Percebi desde logo que não tinha a menor ideia do que estava a fazer…! (Rookies)
Os reconhecimentos podiam ser realizados no dia 8 de Maio ou no dia 14 de Maio que antecedia ao Rali. Tendo em conta que era o meu primeiro Rali, decidi fazer tudo com tempo e não no mesmo dia das verificações técnicas. Fui para o terreno no dia 8 de Maio, e só no dia 8 de Maio, como “mandandavam” as indicações da prova.

O nervosismo começava a tomar conta de mim… “Como será receber notas? Possa! Nunca guiei com base no que diz o gajo que está ao meu lado… E as trajetórias?… Estou lixado!”
Na quinta-feira o sono foi turbolento! “Será que o carro passa nas verificações? E se eu deixo ir o carro abaixo no arranque? As pessoas vão pensar que sou um maçarico…” (Nada que não tenha já acontecido a muitos bons pilotos)… Inseguranças de principiante!

Fomos para as verificações com o carro a circular na estrada e desde logo percebemos o quanto as pessoas gostam de Ralis! Desde “buzinadelas motivacionais” aos “puxa c*lho”, percebemos que os Ralis têm uma atmosfera absolutamente festiva e de proximidade entre quem assiste e quem compete. Nos Ralis há interação entre o público, navegadores, equipa e pilotos. Ninguém é mais do que ninguém, é como se os pilotos e o público estivessem em perfeita harmonia e dedicados a um fim comum: festa, alegria e amizade! Uma simples viagem até às verificações resulta numa história para contar aos netos!
Nas verificações tudo correu como pretendíamos, o nosso carro passou! Nas mesmas, encontrámos pilotos que já conhecíamos e pessoas disponíveis para nos ajudar, tanto na organização como navegadores ou equipas… Este espirito de entreajuda deixou-nos, desde logo, agradados por estar naquele meio. Aquele ambiente era como se fosse a “nossa casa”, mas rodeados por algumas pessoas que nunca tínhamos visto.

Na noite antes do Rali, já no Casino do Estoril, fiquei a saber a lista de partida… Para mim, nada podia ser pior do que estar a arrancar à frente de 5 KIA Picanto que tinham o dobro da potência do meu carro e que transportavam pilotos e co-pilotos com uma experiência que nada tinha a ver com a minha. Só pensava que ia estar a “estorvar” no meio da PEC, mesmo sabendo que saiamos com 1 minuto de diferença… Fiquei com os nervos em franja por saber que haviam zonas muito estreitas em que a minha boa vontade não ia ser suficiente para que conseguissem passar dois automóveis… Mais uma noite sem dormir…
Quando me inscrevi no Rali, fi-lo porque gosto da modalidade e porque quero ter o momento inesquecível que é satisfazer uma grande paixão. No entanto, é inevitável pensar que o desporto automóvel acarreta riscos, principalmente quando se trata de um Rali, uma prova que ocorre em estradas de serra, onde há várias árvores, muros e postes que se podem atravessar à nossa frente. Nesse sentido, há sempre um nervoso “miudinho”, principalmente quando existe a pressão de ter carros mais rápidos a arrancar atrás de nós. Aquilo que para muitos pilotos não é transtorno, para mim que estava no meu primeiro Rali era um fator de grande stress. Este ia fazer com que eu tentasse andar mais depressa e quem sabe “inventar para além da minhas capacidades”.

Cheguei ao Casino do Estoril e tentei perceber como tudo funcionava… “Relógios? O co-piloto deve acertar o relógio pela hora dos relógios do rali? Como é que eu sei quando é para sair?” Pensava eu… De repente, vi que havia um belo Ford Escort MKI com o número 48… Percebi que saia após aquele belo exemplar.
No troço de ligação parámos para verificar a pressão dos pneus e comprar umas barras energéticas, seguimos para a primeira PEC e logo na entrada para a rampa da pena estavam uma série de amigos e conhecidos a apoiar-nos! Há melhor? Sentir o acompanhamento dos amigos e o apoio é das melhores sensações de sempre! Deixo desde já o meu agradecimento a todos!

Arrancámos para a primeira PEC e percebemos logo a exigência de conduzir num Rali. Para além da concentração necessária para tentar fazer “depressa e bem”, há que ter olhos de lince! Umas curvas após o arranque, o Fernando Peres, infelizmente, teve uma avaria que deixou o seu automóvel encostado à berma, à saída de uma curva sem visibilidade. É deveras impressionante este primeiro automóvel avariado no troço: “Possa! E agora? Encosto à para a direita e passo a fundo ou encosto à direita e passo devagar?” Felizmente há sempre um co-piloto fora do automóvel avariado ou “colidido” a prestar auxilio a quem está em prova e a evitar que hajam colisões com automóveis que possam estar mal colocados. (Não era o caso)
Chegámos ao final da rampa da pena sem travões! Cedo ã! O Sandro já não sabia as notas e eu já só queria que a travagem arrefecesse para conseguir continuar a prova em segurança. Geri um ou dois quilómetros sem abusar da travagem e a tentar arrefecer ao máximo os travões. Antes de cada curva carregava ao de leve com pé esquerdo para saber se podia continuar ou não a acelerar. Demasiada informação para poucos quilómetros de Rali… Em apenas 3 ou 4 quilómetros, percebi que a qualquer momento podia encontrar um acidente, para além disso, percebi que teria de gerir a mecânica de forma a que ela chegasse ao final do Rali.

A primeira PEC foi absolutamente eufórica e memorável. Sem notas desde o meio da etapa, chegámos ao fim a gritar que nem uns loucos: “Estamos no Rali das Camélias c*lho! Wow!!!! Brutal!! Bora lá!!”. Logo na primeira PEC pudemos afirmar que nunca nos tínhamos divertido tanto na vida, apesar da falta de travagem e das aprendizagens “à pressão”! Olhámos para a classificação e tínhamos mais de 10 automóveis atrás de nós, sentimos que estávamos a fazer um bom trabalho.
Arrancámos na segunda PEC passámos automóveis avariados e também notámos falta de muitas notas como “Zona Suja”, “Não corta”, “Fecha no fim”, todas aquelas que, só pelo palavreado vos indicam: “A coisa esteve preta, algumas vezes!” No entanto, a diversão e a adrenalina continuavam no auge. Chegámos ao fim da segunda PEC e passavam labaredas pelas jantes da frente do nosso COLT, tal estava fadigada a travagem.

Chegámos a Mafra e arrancámos confiantes, embora esta 3ª PEC tenha sido bastante “fatídica” em termos de acidentes. A mesma acabou por ser cancelada, não antes de termos uma descolagem de um pneu num gancho, que nos enviou para o fundo da tabela. Aprendi a trocar rodas a contra-relógio e a não colocar as mãos quando o co-piloto está a fechar a bagageira. Ganhámos 10 minutos de atraso e um dedo roxo, podia ter sido pior!
As PEC´s da tarde decorreram com normalidade e o nosso Mitsubishi portou-se como um verdadeiro automóvel de corridas. Não fosse o pneu descolado e não substituíamos absolutamente nada! Temperatura OK, Óleo OK, Pneus OK, estamos prontos para andar depressa… Na medida do possível!

O espirito de entreajuda levou-nos a conhecer os senhores do belo Ford Escort MKI, o Sr. José Santos e o Sr Barra Godinho, que arrancaram sempre imediatamente à nossa frente, uma vez que eram o número 48 e nós eramos o número 49. Ao longo de todo o Rali conversámos diversas vezes e trocámos muitas ideias. Resultado: Uma foto para a posteridade e a ansiedade por voltarmos a partilhar os troços e histórias de outras andanças.
Não podia ser melhor o balanço do primeiro Rali e quanto mais me lembro de todas as peripécias, todos os receios e toda a adrenalina, mais tenho a certeza que este é um dos desportos mais bonitos do mundo e a melhor experiência automobilística que um verdadeiro apaixonado por automóveis pode ter, independentemente do carro com que se compete, da experiência que se tem, ou do resultado da tabela classificativa. Ficam as histórias, as experiências, as aprendizagens e as amizades!
Fotos: João Santos, FotoNuno, FotoAlex, Helena Dias, João Carvalho.










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