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Rallye Verde Pino: O resumo do Rali mais intenso em que já participei!

A equipa CarZoom levou o seu Mitsubishi Colt “Low Cost” ao Rallye Verde Pino, organizado pelo Núcleo de Desportos Motorizados de Leiria. O objetivo principal da equipa não foi cumprido, pois a mesma não chegou ao fim, no entanto, ficam as histórias para contar, acerca daquele que foi o Rali mais intenso de sempre. Como seria de esperar, a história de um Rali tem que ser contada na primeira pessoa.

O meu nome é Tiago Neves, já realizei alguns ralis com um automóvel muito modesto e, depois de ter entrado neste mundo, não quero mais sair. O Mitsubishi Colt “Low-Cost” tornou-se num automóvel de Ralis aos poucos, demorou algum tempo a estar apto a fazer provas, como tantos que por aí circulam. Num processo que demorou mais de 1 ano com uma pandemia pelo meio, o automóvel comprado por 400,00€ levou amortecedores uma revisão generosa, rollbar, baquets, extintores, cintos e documentação adequada, hoje, está apto em participar em qualquer Rali regional, ou mesmo, no campeonato nacional de velocidade ou montanha nos Legends 1300. Embora possa fazer mais do que apenas Ralis regionais, os ralis tornaram-se uma verdadeira paixão.

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Como é normal em todos os carros de corrida, estes nunca estão acabados. Antes do Rali Verde Pino decidi evoluir a caixa de velocidades, esta foi enviada para a RMC em Maceira (Leiria) e a empresa realizou um trabalho extraordinário numa relação final com engrenagens rectas que tornaram o lento e aborrecido Mitsubishi Colt num automóvel com uma garra já digna de um verdadeiro carro de Ralis. Depois da caixa de velocidades montada e de um pára-brisas substituído devido a um precalce, estava o Mitsubishi Colt pronto para atacar as estradas do Rallye Verde Pino.

Em bom português diz-se: “Jogar as fichas todas”… Foi o que aconteceu para o Rallye Verde Pino, substituímos foles de transmissão, verificamos fluídos, travagem, alinhamentos de direção, verificámos o fundo do automóvel para vermos se tudo estava conforme e estávamos então prontos para o Rali mais longo de Portugal.

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O Rallye Verde Pino é um dos Ralis mais antigos, na verdade, começou em 1949 e chegou a ter cerca de 2000 quilómetros. A última edição tinha ocorrido em 2014, foram 6 anos sem Rallye Verde Pino, que voltou ainda melhor nesta edição de 2022. O convidado especial deste Rali foi o campeão do mundo de 1985, Timo Salonen. Não faltaram pilotos estrangeiros já que estavam presentes cerca de 5 nacionalidades e 32 equipas. Para além das equipas e dos automóveis extraordinários, devido à sua extensão, este Rallye Verde Pino teve uma logística verdadeiramente complexa do ponto de vista da organização que fez com que fossem necessários cerca de 90 colaboradores, 70 elementos da Guarda Nacional Republicana e 60 Bombeiros.

Como é habitual, saímos da zona de Sintra em direção a Leiria, no entanto, realizámos uma paragem no Kartódromo do Bombarral para realizar um primeiro teste ao nosso Mitsubishi Colt com a evolução na caixa de velocidades e aproveitámos para realizar alguns co-drive com patrocinadores. De Sintra ao Kartódromo do Bombarral percorremos cerca de 80 quilómetros e no Kartódromo do Kiro realizámos cerca de 30 voltas. Quando chegámos a Leiria, o conta quilómetros do nosso Mitsubishi marcava já mais de 170 quilómetros percorridos.

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A verificações documentais e técnicas ocorreram num espaço muito bem organizado junto ao estádio de Leiria. Como é já habitual no NDML, todos os comissários e colaboradores do Núcleo receberam as equipas com boa vontade e um sorriso no rosto. No KIT de Rali encontrava-se uma placa “à antiga” com o número da equipa e nome do Rali. Embora o Shakedown no kartódromo de Leiria tenha sido cancelado, não faltaram distrações até à partida simbólica. O parque automóvel deste rali deixava qualquer apaixonado com os olhos a brilhar: Porsche 911 GT3 RS, Triumph TR7 V8, Ford´s Escort MKI e MKII, Porsche 911 SC, Opel Kadett GTE, Alfa Romeo 2000 GT Veloce, Subaru Impreza, Toyota AE86 Levin, Renault 5 Turbo e Austin Mini 1000, eram alguns dos automóveis que nos deixavam a salivar. Entre os pilotos, sobressaia um rosto bem conhecido era ele Timo Salonen, sempre muito afável e bem disposto, disponível para tirar fotografias ou dar autógrafos.

Ao cair da noite, chegou a hora da partida simbólica no centro da cidade de Leiria. Uma bonita cerimónia onde não faltava público: subíamos ao palanque, éramos apresentados, o publico de Leiria sempre muito simpático, desejava a boa sorte com sorrisos contagiantes. Perante este cenário, qualquer equipa ficava entusiasmadíssima… Nós não fomos diferentes e decidimos que tal momento não podia ficar apenas nas nossas memórias, também os nossos leitores podem contemplar esta experiência no vídeo abaixo:

Chegámos a sábado! O dia em que começava o primeiro rali da vida do João Padriano e o rali mais longo que alguma vez fiz. Rapidamente percebemos que não seria “pêra doce”, o primeiro troço de ligação era do estádio de Leiria a São Pedro de Moel que era a primeira especial do Rali.

Esta primeira especial do Rallye Verde Pino era uma das melhores, um troço muito bonito, rápido e técnico, onde piloto e co-piloto tinham que estar com a máxima atenção. A estrada no início da especial era estreita, tinha zonas húmidas e escorregadias, zonas sujas, e árvores, pontes e muros constantemente a rirem-se para os automóveis de Rali que ali passavam.

Logo na nossa primeira passagem neste magnifico troço da Marinha Grande percebi que o João Padriano é um co-piloto muito talentoso… O miúdo de apenas 22 anos ditou todas as notas na perfeição no seu primeiro Rali. As notas são muito importantes, na verdade, é impossível decorar tantos quilómetros de estrada, portanto, as notas bem dadas fazem toda a diferença, neste troço, portámo-nos a altura, assim como o nosso pequeno Colt que mostrou estar apto a “lutar com os mais crescidos”. Na nossa primeira passagem conquistámos o quarto lugar, numa classe onde o automóvel mais equiparado ao nosso tinha o dobro da potência.

Após a Especial da Marinha Grande voltámos a perceber que este Rali era “à séria”. Como se tratavam de 13 Provas Cronometradas em um dia, os tempos de ligação eram realmente curtos, quase não tínhamos tempo de retirar os capacetes de uma PEC para a outra, o que ainda realçou o trabalho do co-piloto. Qualquer engano iria resultar numa penalização. Chegámos a Porto de Mós, uma localidade lindíssima na qual realizávamos a rampa de Porto De Mós.

Tratando-se de uma subida com uma inclinação acentuada, já se notaram os apenas 75cv do nosso Mitsubishi Colt. Esta rampa era divertidissíma pois contava com uma paisagem de cortar a respiração, imenso público e uma estrada larga e perfeitamente alcatroada. Curvas largas e com alguma inclinação levavam-nos ao êxtase da condução.

Curta mas intensa, chegávamos ao final da rampa de Porto de Mós, o troço de ligação levava-nos à Batalha para a 3ª PEC da manhã. Esta PEC brindava-nos com retas intermináveis, topos, uma vista de serra maravilhosa, estradas largas e muito rápidas. As boas condições das mesmas faziam com que acreditássemos que dava sempre para “ter feito mais depressa” . A PEC começava numa descida que tinha alguns buracos generosos do lado direito. Colocar ali uma roda resultava num impacto brutal para suspensões, principalmente para suspensões de origem, ou seja, nada preparadas para passar buracos e valas a fundo como vemos no WRC.

Este troço não tinha muito público mas, se fosse um circuito, era certamente o circuito do Algarve com as suas subidas e descidas cegas em que temos de acreditar sem ver. Uma das minhas PEC favoritas que espero poder voltar a repetir num Rali.

Chegávamos ao final da primeira parte da manhã, ou seja, já tínhamos ido em ligação do estádio de Leiria para a Marinha Grande, da Marinha Grande para Porto de Mós e de Porto de Mós para a Batalha, estavam percorridos mais de 100 quilómetros só na primeira metade da manhã… Então, o que nos esperava? Repetir as mesmas PEC e os mesmos troços de ligação, o que fazia com que chegássemos ao final da manhã com mais de 200 quilómetros feitos entre especiais e troços de ligação. Até agora, o feeling do nosso Mitsubishi era bom e estávamos a gostar muito da “nova” caixa de velocidades.

Repetimos as 3 PEC, não tivemos penalizações e acabámos a manhã. A hora de almoço era mais do que suficiente, embora contasse com uma ligação generosa no número de quilómetros. Seguíamos da Batalha para Pombal, que era a primeira PEC da tarde. A PEC de Pombal era muitíssimo técnica, haviam zonas rápidas, estreitas e muito sujas entre casas e árvores que, como se não bastasse, eram a descer. Por outro lado tínhamos também cerca de 2 quilómetros de uma estrada larga e rápida que nos levava a mais estradas estreitas e sujas. Uma adaptação constante na condução entre o modo “ataque” e o modo “prudente” pois uma zona suja e uma árvore podem estragar todo um Rali. Esta PEC seria repetida no Domingo.

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Saímos de Pombal e rumámos a Ansião… Para um slalom????? Lembro-me de ter comentado com o João Padriano: “Odeio Slalom, é uma seca!”… Bom, foi dos melhores slalom que fiz até hoje… Embora não tivesse sequer olhado para o trajeto que foi enviado pelo NDML, apreciei bastante este slalom, que ocorria num parque industrial “à pinha” de público… Era um slalom realmente rápido com baias, rotundas, subidas, curvas com inclinação ao contrário, um trajeto quase digno das Gymkhanas do famoso Ken Block. Mais slaloms destes houvessem, mais tempo nos divertíamos. Ainda assim, tivemos a oportunidade de o realizar duas vezes na tarde de Sábado.

Num Rali cheio de PEC´s muito diferentes e variadas, haviam duas que se iam destacar: Alvaiázere e Castanheira de Pêra… Estas duas PEC eram muito longas, cito: 9km e 12,4km. A primeira destas PEC era Alvaiázere que teríamos a oportunidade de realizar a primeira passagem de dia e a segunda passagem à noite. De dia, adorámos a PEC de Alvaiázere que era muitíssimo exigente, rápida, lenta, técnica, como se tivesse de tudo um pouco… O público não abundava nesta PEC que tinha acessos difíceis, mas uma vista privilegiada para a água, uma vez que esta PEC terminava junto ao parque de campismo da foz do Alge e era, toda ela, junto ao rio… Confesso que pensei em levar o calção de banho, caso as PEC corressem menos bem…

Conseguimos andar bem durante o dia em Alvaiázere, realizámos novamente o slalom, realizámos a rampa de Figueiró dos Vinhos e o nosso pequeno Colt começava já a acusar muita fadiga da travagem. Podemos afirmar que a PEC noturna de Alvaiázere foi um verdadeiro “suplicio”, o nosso carro não travava (luz da travagem acesa no painel), a modesta barra de LED tornava o escuro da noite menos sombrio e o João Padriano tentava fazer milagres sem uma luz para ver a notas, por esquecimento do piloto. (Coisas de principiante)

Terminámos a PEC noturna de Alvaiázere e, no troço de ligação, mal conseguíamos parar nos cruzamentos… Tínhamos duas placas ferro no lugar das pastilhas, o som da travagem era cada vez mais arrepiante, mas tínhamos de concluir a última PEC do dia, nem que fosse devagar e com os 4 piscas ligados… Por sorte, esta última PEC era a Rampa de Figueiró dos Vinhos, que era sempre a subir… O nosso Mitsubishi com abrandadores terminou a prova de Figueiró dos Vinho e pensávamos nós que depois da tempestade vinha a bonança (Parque de assistência).

Chegámos ao parque de assistência e tínhamos os mecânicos prontos! Por acaso, eram os mesmos tipos que tinham estado a conduzir e a dar notas durante o dia todo… O suporte desta modesta equipa era uma mala de ferramentas, um macaco, duas rodas e um jogo de pastilhas… Levantámos o nosso Mitsubishi e não conseguimos continuar, uma vez que a travagem estava, de facto, em muito mau estado. Pela primeira vez não trouxemos o nosso Mitsubishi a andar de volta para Lisboa, para não comprometer a segurança dos demais utilizadores da estrada. Desistimos do Rali e não realizámos as PEC de Domingo que seriam em Pedrogão Grande e Castanheira de Pêra…

Uma aprendizagem que fica, de um Rali verdadeiramente bonito, intenso e absolutamente inesquecível. Pelo menos, ficaram as aprendizagens, os On Board, as fotografias, as memórias e as 50 árvores que o Núcleo de Desportos Motorizados de Leiria plantou por cada uma das equipas inscritas, podemos dizer que o pinhal de Leiria terá agora 1600 novas árvores devido ao Rallye Verde Pino. Nada disto seria possível sem a organização (NDML), voluntários, GNR e Bombeiros.

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Fotos: Bruno Gonçalves, Márcio Carvalheira, PickPregoaFundo, Pedro Matos e NDML

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