NoticiasComunicados de Imprensa

A Bentley decidiu fazer o inimaginável

A Bentley decidiu fazer o inimaginável: produzir um carro que não se fabricava há quase um século. O Blower, de 1929, possivelmente um dos mais míticos de sempre, está a ser novamente construído de raiz, em 12 exemplares absolutamente exclusivos.

Que fique claro, desde já: não se trata de uma daquelas reedições de homenagem a uma efeméride. Ou de um “Blower dos tempos modernos”. Nem, tão pouco, de uma carroçaria antiga restaurada, com uma motorização moderna por baixo. Nada disso. Esta história desafia os limites do real, do racional, e cria novas fronteiras para a paixão: a Bentley está a produzir manualmente, a partir dos desenhos e peças originais, um dos modelos mais emblemáticos da história da marca. Um trabalho meticuloso e, no mínimo, audaz.

Já ouviu falar em “reverse engineering”? Há quem lhe chame “engenharia reversa”, ou “retrotécnica”, ou ainda “retroengenharia”, e tem sido mais usada na indústria do software, se bem que se generalize a muitos processos, até na gestão. Consiste em pegar num produto acabado e perceber como funciona ou como foi feito, para o reproduzir. O que implica, no caso de conjuntos mecânicos, desmontá-los e analisá-los peça a peça. Em suma, começar do fim para o princípio.

Deixemos as considerações de espionagem industrial – sim, são famosos alguns casos de “reverse engineering” menos lícitos ao longo da história – porque aqui a narrativa é outra. A Bentley usou exatamente este processo para poder produzir de novo o Bentley Blower de 1929, num contexto em que muitos dos desenhos originais foram perdidos.

 

Para elaborar o Car Zero desta série de 12 unidades destinadas a clientes – todos já vendidos – a marca recorreu aos esboços sobreviventes dos projetos originais, assim como a moldes e ferramentas utilizadas para os quatro Blowers originais, construídos e guiados em competição por Sir Henry “Tim” Birkin no final da década de 1920.

Mas isso não chegava. Faltava ainda muita informação.

Por isso, a Bentley utilizou um modelo base para a denominada Continuation Series: nada menos do que unidade da equipa Bentley que competiu em 1929, mais precisamente o Chassis HB 3403, motor SM 3902, matrícula UU 5872.

E o que se seguiu desafia a imaginação e a paciência.

Os artesãos da Bentley desmontaram e mediram a laser cada componente do carro, como forma de ter a base de um novo original.

O primeiro passo residiu nesta extensa análise dos desenhos dos projetos da época e de esboços que fizeram parte da criação dos Blower de competição, juntamente com fotografias da altura. Seguiu-se a desmontagem peça a peça do carro nº2 da equipa Bentley (provavelmente o Bentley mais valioso do mundo) e uma digitalização a laser de alta precisão da estrutura e dos seus componentes, sendo assim criado um modelo CAD do Blower.

Só para artesãos…

A partir destes dados, foram concebidas e trabalhadas à mão 1 846 peças para criar o novo Blower, das quais 230 são conjuntos, como por exemplo o motor, o que eleva o total de peças para vários milhares. Todos estes componentes foram criados por uma equipa da Bentley Mulliner da qual fazem parte engenheiros, artesãos e técnicos, trabalhando em conjunto com vários especialistas e fornecedores britânicos.

 

 

 

O chassis foi criado em aço, moldado e rebitado a quente por especialistas na Israel Newton & Sons Ltd, empresa com 200 anos de existência, enquanto a Vintage Car Radiator Company, de Bicester, produziu réplicas exatas de alguns dos componentes chave, incluindo a moldura do radiador, em níquel polido, e o depósito de combustível, em ferro e cobre trabalhados à mão.  As suspensões de molas de lâminas, assim como os apoios, foram realizadas de acordo com as especificações originais pela Jones Springs Ltd, especialista com quase 75 anos de experiência e uma história que começou com trabalho de ferreiro. Os emblemáticos faróis do Blower renasceram graças à Vintage Headlamp Restoration International Ltd, de Sheffield, onde uma equipa formada por pai e filho é mundialmente reconhecida pelo seu trabalho em metais preciosos, bem como pela capacidade de criar faróis com design vintage a partir das especificações originais.

Entretanto, em Crewe, na divisão Mulliner, da Bentley, uma nova armação de carroçaria em madeira produzida pela Lomax Coachbuilders, Ludlow, passou pelas últimas etapas de carpintaria e preparação para receber os painéis de carroçaria. No Car Zero a carroçaria em preto lustroso foi combinada com cabedal Bridge of Weir em Vermelho Oxblood, com acabamentos a condizer. Tal como nos originais, o enchimento dos bancos foi feito com um total de 10 quilos de crina de cavalo.

O motor

O novo motor de 4½ litros do Car Zero, originalmente desenhado pelo próprio W.O Bentley, foi recriado com o apoio técnico de especialistas, incluindo aNDR Ltd, de Watford. Com várias inovações que fizeram história – pistões em alumínio, árvore de cames à cabeça, quatro válvulas por cilindro e dupla ignição – o famoso 4½ litros recebeu um compressor Roots da Amherst Villiers, de produção recente. O motor deste Blower recém-criado é uma réplica exata dos propulsores que moviam os quatro carros da equipa de Tim Birkin no final da década de 1920 – incluindo o uso de magnésio no cárter.

Enquanto o primeiro motor estava a ser construído, trabalhava-se também na preparação do banco de ensaios da Bentley para receber um propulsor com design de quase 100 anos. Em Crewe, sede da marca, estas são instalações que existem desde que a fábrica foi construída, em 1938, tendo sido inicialmente utilizadas como bancos de potência para testar os motores aeronáuticos Merlin V12, ali produzidos e utilizados nos caças Spitfire e Hurricane durante a Segunda Guerra Mundial.

 

 

 

E, aqui, a Bentley tomou algumas liberdades. A marca desenvolveu um software específico para analisar os dados de performance, permitindo aos engenheiros obter um funcionamento de acordo com os parâmetros originais. Visto que grupo motopropulsor do Blower é consideravelmente diferente, em tamanho e forma, dos motores atuais da Bentley, vários equipamentos de teste dos Merlin – ainda armazenados na Bentley – foram utilizados para adaptar os testes ao motor do Blower.

A história

Para muitos, o Bentley “Blower” é o mais mítico carro de competição dos anos pré-guerra, e para sempre ligado à imagem do seu piloto, o audaz “Bentley Boy” Sir Henry Birkin. A sua criação nasce, aliás, de uma teimosia de Birkin: em 1928 já se tinha tornado claro que o 4 ½ Litre tinha atingido o limite de desenvolvimento, com a concorrência em pista a tornar-se cada vez mais próxima da supremacia dos Bentley.

E aqui surge a divisão… W.O. defendia o aumento da cilindrada, e apostava no 6 ½ Litre Speed Six, enquanto “Tim” Birkin preferia a opção de sobrealimentação. Não houve acordo e W.O. acabaria por ser desautorizado por Woolf Barnato, outro “Bentley Boy” que, entretanto, assumira a presidência da marca depois de nela ter injetado capital.

 

A decisão foi salomónica, mesmo assim: Birkin foi autorizado a ir por diante com o projeto, mas teve de encontrar fundos privados para desenvolver a versão sobrealimentada. Com o dinheiro reunido, recorreu então ao engenheiro independente Amherst Villiers, e eis que nasce o “Blower”, vistoso na aparência, com o proeminente compressor na dianteira, e no rendimento. Dos 110 cv iniciais, “Tim” tinha agora 175 cv sob o capot.

Objetivo? Le Mans. E uma nova história que entra para a galeria dos mitos do automóvel.

O duelo entre o piloto da Mercedes-Benz Rudolf Caracciola e Sir Tim Birkin nas 24 horas de Le Mans de 1930, tornou-se uma lenda. E, tal como acontece com muitas lendas, é difícil separar os factos da ficção. Mas vale a pena contar a história: para a corrida, a Bentley apresentou-se com três Speed ​​6 da formação oficial, bem como com a equipa independente dos 4 ½ Litros “Blower” de Birkin. Desde o início da prova, Birkin e Caracciola correram “taco a taco”, sendo famosa a ultrapassagem de Birkin ao Mercedes SSK de Caracciola na reta de Hunaudières com duas rodas na relva. Nenhum dos dois chegou ao fim, deixando o caminho livre a Barnato para, com Glen Kidston, chegar à vitória num Speed ​​Six, o “Old Number One”.

 

 

Mais tarde, a Bentley alimentou o mito segundo o qual Birkin forçou deliberadamente o andamento do Mercedes, numa estratégia de “tartaruga e lebre” que preparou a vitória ao Speed ​​Six… Mas o mais provável é mesmo que Birkin visasse a vitória, porque, de resto, só conhecia uma maneira de guiar: prego a fundo…

Enquanto estas memórias desfilam por todos nós, enquanto esta história inigualável continua a inspirar fãs e engenheiros, ou enquanto lê estas linhas, o Car Zero, o Blower ressuscitado que serve de protótipo à Blower Continuation Series, está a fazer testes de estrada. Depois de mais de 40 000 horas de trabalho, este exemplar zero está a ser sujeito, desde dezembro passado, a provas de fiabilidade e performance. O equivalente a 35 000 km de condução em estrada, ao longo de 8.000 quilómetros em pista, simulando ralis famosos como o Pequim-Paris ou as Mile Miglia. E não faltará, naturalmente, o teste de velocidade máxima, ou não fosse este um carro que tem a competição no seu ADN.

Depois destes testes, 12 clientes irão receber os exemplares desta série, que foram vendidos há muito, por um valor não divulgado.

Os “Bentley Boys”, para quem parecia não haver limites, devem estar a celebrar com uma boa flûte de champanhe. O seu maior legado, a ousadia de fazer o que ninguém mais se atreve, continua bem vivo.

Artigo anterior

Toyota revela primeiras imagens e especificações do novo GR 86

Artigo seguinte

PEUGEOT liderou o mercado automóvel português no primeiro trimestre do ano

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.