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Opinião: O automobilismo além das pistas e das estradas fechadas!

Dura é a realidade de quem pretende iniciar-se no desporto automóvel e não tem grande orçamento. É cada vez mais difícil seguir o correto caminho da aprendizagem com toda a segurança e em ambiente controlado. As licenças desportivas já foram mais caras, mas também já foram mais baratas… Em terras de “nuestros hermanos” fazem-se corridas e eventos com valores de inscrições bem mais baratos e há troféus para todos os gostos e feitios, desde os ralis à velocidade. A Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting toma um rumo que vai de acordo com o que está preconizado pela Federação Internacional do Automobilismo (FIA) que encarece ainda mais a modalidade. Apesar de querermos que tudo seja mais económico para sustentar este desporto muito caro, há um longo caminho de bons exemplos a seguir, que não passam apenas por baixar as exigências monetárias de quem pretende seguir a sua paixão… Há trabalho além pistas e das estradas fechadas!

As licenças por 80,00€ permitem a quem quer competir realizar rampas regionais, ralis regionais, entre outros. São uma verdadeira mais-valia, para além das matriculas especiais que permitem a quem tem menos posses, levar os automóveis de competição a rolar na estrada. Todavia, são raros os Ralis em que não se pague mais de 300,00€ de inscrição, há quem ache muito, há quem ache pouco… Há quem ache que os clubes organizadores fazem milagres ao organizar Ralis com valores “tão reduzidos” e há quem ache que está tudo mal desde quem organiza até à federação. Um tema bastante complexo que nos iria obrigar a fazer contas a todas as despesas de organizar uma prova de automobilismo, uma temática que dava muitas horas de conversa.

Temos assistido a exigências cada vez maiores na segurança dos automóveis, na segurança dos pilotos e esta é uma verdade inquestionável. Se umas baquets com 6 ou 7 anos estão em bom estado e têm que ser trocadas? Bom! Não sei se fará grande sentido, a verdade é… Quem é que realmente verifica e se responsabiliza pelo estado de uma baquet com muitos anos? Fica a questão… Felizmente, são cada vez mais raros os casos de acidentes muito graves que resultam em mortos e feridos, a isso, devemos às federações e aos clubes, que tentam zelar pela segurança dos pilotos e do público. Há efetivamente medidas que fazem sentido e que os pilotos agradecem na altura em que vêem as mesmas justificadas, obviamente, também há outras que parecem penalizar quem tem menos recursos.

A federação portuguesa de automobilismo, os pilotos e o público que gosta da modalidade têm a responsabilidade de promover o automobilismo! Não falo de promover para quem já aprecia e ama as modalidades que envolvem volantes e 4 rodas mas, essencialmente, promover o automobilismo junto de quem não gosta e é vincadamente contra.

A comunicação social não especializada é uma absoluta catástrofe quando se trata de desporto automóvel. Cada vez que ouvimos falar de uma prova de automobilismo durante mais do que 1 minuto em horário nobre é porque, evidentemente, aconteceu uma desgraça! Pensemos na quantidade de pessoas cuja única informação que têm acerca do desporto automóvel foi o acidente que passou na televisão… Este público não nutre qualquer simpatia pelo desporto e não se interessa minimamente pelas pessoas do desporto automóvel, no que consiste o desporto automóvel e das mais-valias que o mesmo traz para comércios locais, para o turismo e, a limite, até nos desenvolvimentos técnicos provenientes das classes mais altas, que nos oferecem carros mais seguros, menos poluentes, mais eficientes e confortáveis, que são utilizados no dia-a-dia de todos, ou quase todos.

A “nossa” Federação está, neste momento, a preocupar-se em seguir tudo o que são normas FIA, o que até pode ser bom em alguns pontos de vista. A verdade é que, por outro lado, o desporto automóvel está cada vez mais insustentável e elitista, as inscrições para os eventos de velocidade e ralis são uma brutalidade, nas rampas chegam-se a pagar quase 400,00€ de inscrições (classe regional) para percorrer pouco mais de 20 quilómetros, enquanto no campeonato nacional de montanha se pedem quase 600,00€ de inscrição para a classe de entrada (1300) na qual se percorrem pouco mais de 30 quilómetros, em alguns casos. Se estivermos a falar de alguém que viva do seu ordenado, mesmo tendo um ordenado acima da média, é um “investimento” a fundo perdido que deixa de ser um hobbie e passa quase a roçar o nível da loucura. Há exemplos práticos da FIA, que deviam ser seguidos e que não custam absolutamente nada nem aos pilotos nem às equipas, para além de contribuírem para a boa imagem deste desporto.

Os problemas a nível organizacional são muitos… Devido a roadbooks que são enviados 3 ou 4 dias antes do início de determinados Ralis e durante a semana, muitos pilotos e navegadores vêem-se “obrigados” a investir dias de férias para reconhecer os ralis durante a semana, abdicando de tempo que poderiam despender com as suas famílias. Bem sabemos que não se consegue agradar a Gregos e Troianos e que este é sempre um compromisso muito difícil, principalmente quando não existe qualquer controlo sobre os reconhecimentos…

As equipas reconhecem as vezes que querem, repetem as vezes que querem e, há até equipas que fazem velocidade nos Ralis, acredito que nem precisavam de co-piloto, mas é obrigatório… Mais grave do que as dezenas de passagens é o facto de circularem à velocidade que querem, desrespeitando as pessoas que moram naqueles locais, os utilizadores da via que vão descansados na sua vida e se habilitam a levar com um tipo que está a cortar uma curva sem visibilidade e a fundo, e até para com os outros concorrentes que também estão a reconhecer e não querem ter acidentes nos reconhecimentos, porque alguma equipa decide andar “em modo stage” com a estrada aberta ao público e ao trânsito… Felizmente, nunca ouvi relatos de terem sido atropeladas pessoas ou animais…

Durante as provas, todos os automóveis têm que ter baquets e cintos homologados, extintores e o piloto tem que estar equipado com uma panóplia de equipamentos que ultrapassam os 1000,00€ na sua aquisição (gamas mais baixas), as exigências para com os clubes são também enormíssimas. Quando o tema é segurança, ainda bem que assim é! Apesar disso há uma parte que está a ser descurada pela federação, a segurança tem que existir sempre e não apenas durante as provas. Todos somos responsáveis pela imagem que passamos do desporto automóvel sejamos adeptos, pilotos, navegadores, mecânicos… Todos! A imagem que passamos, é a imagem que algumas pessoas que não gostam deste desporto e que até gostariam de acabar com ele vão ter!

Quando uma noticia do “nosso desporto” é passada num canal de televisão ou publicada por escrito num meio de comunicação social de peso ou mais generalista, são vários os comentários nas redes sociais desses órgãos de comunicação social que dizem o seguinte: “Isto não serve para nada, só para poluir o ambiente!”; “Um grupo de ricos que só sabe é fazer barulho, poluir e colocar em risco a vida dos outros!” ; “Vem para aqui e andam de qualquer maneira, não respeitam nada nem ninguém!”; “Não consegui voltar a casa às horas que queria porque ninguém me avisou que ia aqui passar o evento!” … Como amante do desporto automóvel, fico chateado quando leio estes comentários, é inevitável… No entanto, volto a repetir: “Todos somos responsáveis pela imagem que passamos do desporto automóvel!”

Torna-se difícil passar uma boa imagem quando é rara a comunicação que fala de pilotos a realizarem ações em prol do ambiente ou de ações de solidariedade, por exemplo. A federação e uma boa parte dos pilotos preocupam-se apenas com as normas que dizem respeito à competição e com o cronómetro, mas há trabalho a ser feito além disso! A federação tem a responsabilidade de criar iniciativas que promovam o desporto e quem faz parte dele, iniciativas que ajudem e que contribuam para a sociedade… Eu quero fazer parte de um desporto que dá o exemplo! Os pilotos e as equipas não morriam por serem criadas ações esporádicas de limpeza de praias ou plantação de árvores, por exemplo.

É difícil negar que poluímos o ambiente com os nossos carros e sim, também fazemos muito barulho, tal como acontece noutros desportos. Quem sabe se num derby de futebol no meio da cidade de Lisboa não se polui mais do que num Rali do CPR, por exemplo… Mas não vou falar dos outros desportos, estou a escrever sobre o automobilismo, um desporto cheio de coisas boas, que vão além da satisfação dos adeptos e de quem o pratica. É importante dar a conhecer e divulgar o que o automobilismo traz de bom, um trabalho que, na minha ótica, é da federação! Há cafés, restaurantes, hotéis e outros estabelecimentos que faturam mais num fim-de-semana de provas de automóveis, principalmente nas zonas mais isoladas, do que em dois ou três meses de trabalho, é importante colocar os proprietários desses estabelecimentos a falar para a câmaras e é importante apresentar esses números! É também importante colocar os presidentes das juntas de freguesia e das câmaras a explicar porque é que é bom existirem corridas de automóveis nos municípios, o retorno que tem em termos práticos, porque ele existe. A federação, os pilotos, os adeptos e o desporto automóvel em geral precisa do apoio das juntas e das câmaras, pois no dia em que estes não quiserem provas de automóveis, este desporto acaba.

É também trabalho da federação sensibilizar os pilotos para os comportamentos que têm. Somos livres de publicarmos o que queremos nas redes sociais, todavia, não consigo compreender como é que pilotos de renome, que têm a obrigação de dar o exemplo, publicam vídeos bem acima da velocidade permitida por lei na via pública nas suas redes sociais… Parece que estou a ler os comentários no JN/CM/DN que dizem: “Estes tipos dos carros são uns buçais, só se preocupam com eles, não fazem cá falta nenhuma, só poluem e fazem barulho, ainda por cima colocam as pessoas em perigo!” — Lembrei-me agora de uma campanha da FIA… “Make Roads Safe” não é? Não tenho ideia de ouvir falar nisto ultimamente, já de depósitos ATL que custam metade do que custam alguns carros que andam a correr…

A segurança rodoviária e a prevenção também são obrigação da federação, há que falar com os miúdos nas escolas, colocar pilotos a dar o exemplo… Sim! Nós poluímos e fazemos barulho, para compensar, plantámos árvores, limpámos as praias, sensibilizámos crianças e adultos para a forma como nos devemos comportar na estrada. Organizamos provas com toda a segurança, até mesmo antes de começarem! Adoramos um desporto que é mal visto por alguns e amado por tantos outros, mas prometemos fazer a diferença na sociedade e no ambiente e não nos limitamos a ser uns monos que gastam milhares e milhares em carros e que não respeitam nada nem ninguém… Sim! Nós damos o exemplo enquanto federação! Sim! Nós damos o exemplo enquanto pilotos! Sim! Os adeptos do desporto automóvel são os melhores, pois deixam as bancadas e as serras melhores do que as encontraram… Isto é o desporto automóvel!

Nem todas as pessoas têm os mesmos gostos que nós, por isso, não podemos impor, nem podemos obrigar toda a população a gostar de automóveis, no entanto, podemos tornar este desporto “tolerável” para essas pessoas e isso passa pela forma como agimos e como nos comportamos! Não quis com este texto melindrar ninguém, no entanto, gostava muito de continuar a fazer provas de automóvel, gostava que o desporto prosperasse e que os municípios continuassem a querer ter o automobilismo por perto, algo que vai deixar de acontecer se não dermos o exemplo positivo. Nenhum presidente de junta ou presidente da câmara quer a sua “população” descontente, portanto… Nós, amantes de automóveis e do automobilismo temos que trabalhar para fazer a diferença e para que as pessoas nos queiram por perto, porque ajudamos os negócios a prosperar, porque somos cordiais e alegramos as pessoas e fazemos com que os locais fiquem melhores à nossa passagem.

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