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Bernardo Gonzalez: Corridas e Jornalismo de “mãos dadas”!

O Bernardo Gonzalez corria pela casa, em miúdo, com uma tampa de uma panela entre as mãos a fazer de volante. O miúdo que cresceu em Inglaterra ficou mais velho, passou pela Formula Ford e agora conta já com um palmarés invejável no mundo da competição. Aparece várias vezes, há vários anos, nos ecrãs da televisão, para falar sobre automóveis.

CarZoom: Quando é que descobriste que gostavas de automóveis? Já havia o historial na tua família?
Automóveis são uma paixão desde que me lembro e sem grande explicação. Uma das minhas primeiras recordações, como criança, é de ir ao armário de panelas da minha mãe para buscar uma dita tampa. A minha mãe dizia que era o meu ritual, e que passava o resto do dia ‘a conduzir’ pela casa. E daí ganhei logo o nome de ‘Speedy Gonzalez’. Não havia ninguém na família ligado aos automóveis. Talvez o facto de ter nascido e vivido na Inglaterra até aos nove anos tenha tido a sua influência, já que é um país de grande tradição, quer industrial, quer desportiva.

CarZoom: Com que idade começaste a guiar? Como foi a “primeira vez”?
Comecei aos 11 anos, no carro de um amigo, um Citroën Visa. Fazia apenas manobras. A primeira vez que conduzi em estrada foi aos 16 anos. Nas férias de verão, Natal e Páscoa trabalhava numa oficina de automóveis, no Monte Estoril, especializada em carros britânicos, sobretudo MINI. Um dia tive de ir buscar peças e, aproveitando a ausência do patrão, levei uma carrinha MINI Clubman. Não me apeteceu ir de bicicleta… Foi um pouco irresponsável da minha parte, mas divertido, até porque no regresso à oficina dei boleia a um senhor que, embora confiando em mim, chegou lá branco.

CarZoom: Como é que te iniciaste na competição automóvel?
A competição foi o seguimento natural da paixão pelos automóveis e pela enorme vontade de conduzir. Comecei a ir às corridas com um amigo cujo pai correu no Troféu MG Metro e, mais tarde, no Troféu Toyota Consagrados. Fiquei contagiado. A partir daí passou a ser um dos meus grandes objetivos.
Depois de algumas brincadeiras no Troféu DianaKart, em Évora, em 1993 tive oportunidade de correr no Campeonato Nacional de Fórmula Ford. Surgiu através de um grande amigo, o Pedro Vaquinhas, que tinha um segundo carro, um Swift de 92. Consegui juntar uns quantos apoios, o valor suficiente para as primeiras provas. Pouco depois o dinheiro acabou. Tinha apenas 20 anos e foi duro de aceitar, pois tinha concretizado um sonho e queria mais. Ao menos percebi que tinha algum jeito para a coisa. Mas já estava viciado…

CarZoom: O jornalismo apareceu antes ou depois da competição?
Apareceu depois e em consequência de. Estava na faculdade, trabalhava de noite para sustentar o meu carro e as aulas, mas não era nada disso que eu queria fazer. Queria automóveis… Enviei currículos para todas as revistas nacionais e, por acaso, o AutoHoje estava a recrutar. Foi graças à experiência em competição, mesmo que muito pouca, que fui escolhido. Precisavam de alguém para se ocupar das medições dos carros de ensaio (acelerações, velocidade máxima, recuperações e consumos), e eu encaixava no perfil. Fiz milhares de quilómetros, em todo o tipo de automóveis. Foi um período de enorme aprendizagem, com muitas histórias e aventuras para contar.

CarZoom: Porquê a imprensa automóvel?
Em boa verdade, comecei pelos automóveis, não pelo jornalismo. Não era um aluno fabuloso a Português, até porque tinha um certo déficit, dado que a minha língua materna é o inglês. Mas descobri, nos exames nacionais de acesso à faculdade, que até tinha alguma ‘propensão redatorial’, pois foi em Português que obtive as melhores médias.

BMW Media Track Days 2014, Monteblanco Spain

CarZoom: Entre escrever, apresentar programas de televisão e competir, onde é que te sentes verdadeiramente em casa?
Se pudesse, não faria mais nada que não competir, e para lá da idade da reforma… Mas faria também TV, apenas pela diversão e pelo desafio. Ainda tenho muito a aprender e a limar nessa área. O programa GTI ocupa muito do meu tempo e, ao contrário do que muitos pensam, é exigente em termos de vida pessoal. Mas o gozo de trabalhar nesta equipa, a longa amizade que nos une a todos e o reconhecimento do nosso trabalho, mesmo que haja sempre espaço para evoluir, compensa tudo.
Quanto à escrita, tenho diversas colaborações com revistas, em papel e online, pelo que é algo da qual nunca me desligo, até porque gosto muito, desde que não esteja atolado em trabalho…

CarZoom: Tens algum automóvel de sonho?
Tenho, claro: o Porsche 911. Não teria de ser necessariamente dos mais recentes. Na verdade, se tivesse dinheiro, teria uma coleção deles, desde um pré-’73 ao novo 992. Tento não fazer disso uma obsessão, mas espero um dia também concretizar esse sonho.

CarZoom: Qual foi para ti o teu melhor resultado na competição?
Foi um segundo lugar em Misano, no Trofeo Abarth 500, em 2015, após grande luta com o José Carlos Pires e o José Rodrigues. Foi uma corrida noturna, completamente louca, com duas situações de safety car pelo meio. O mais interessante é que entre 32 carros fui sétimo à geral, no meio dos mais potentes Abarth 695.
O terceiro posto em Spa-Francorchamps, sob chuva intensa, também no Trofeo Abarth 500, é outra grande recordação. Consegui manter-me na pista e aproveitar os erros alheios para chegar ao pódio.

CarZoom: Qual o automóvel de competição que mais gostaste de conduzir? Porquê?
O Peugeot 908 V12 HDI de Le Mans. Foi a coisa mais intensa que alguma vez pilotei, sobretudo pela velocidade de passagem em curva. Temos de confiar na aerodinâmica, que é quase contranatura para quem não está habituado, e os G’s são impressionantes. Foi no circuito Paul Ricard, em França. Fazer a reta Mistral a fundo, travar depois da placa dos 100 m, reduzir para 5ª, e entrar a fundo na curva Signes foi das experiências mais alucinantes da minha vida. Cheguei a ver ‘cinzento’, devido à aceleração lateral. Costumo dizer que até tive de lutar conta a gordura dos meus dentes…
Outro carro que me marcou foi um Fórmula 3000 que testei no Estoril. Mas aí, o que mais me impressionou foi o motor e o poder de aceleração. Adorei.

PHOTO : GREGORY LENORMAND / DPPI –
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CarZoom: Se te dessem a oportunidade de escolher uma competição no mundo automóvel. Qual escolhias?
Nesta altura escolheria o WTCC, porque gosto muito do conceito TCR, e é um campeonato muito profissional e competitivo. Também tenho enorme curiosidade de saber como me adaptaria à Fórmula E. É um campeonato que adoro seguir, pelo desafio dos circuitos citadinos, pela gestão da energia, pela inteligência necessária dentro e fora do carro, e pelo espetáculo que proporciona.

CarZoom: É mais fácil ingressar no mundo da competição automóvel através do jornalismo?
Creio que sim. Pelo menos comigo funcionou. Fiz muitas provas como convidado de marcas, equipas ou organizações na qualidade de jornalista. Até cheguei a fazer um rali ao volante do Skoda Fabia TDI oficial, navegado pelo ‘clássico’ Fifé. Foi uma experiência inesquecível!
Essas participações foram sempre ótimas para ganhar experiência e rodagem. Além disso, sempre é melhor do que ficar em casa a ver corridas pela televisão…
Sempre gostei de ir às provas, fosse em trabalho ou apenas para assistir. Custa-me um pouco, porque gostaria de lá estar dentro. Mas mesmo do lado de fora aprende-se sempre muito. Mesmo a nível nacional, a competição é um mundo complexo onde, além das máquinas, imperam as relações humanas. E há pormenores que apenas se aprendem presencialmente, a observar e a falar com as pessoas envolvidas.

CarZoom: Achas que o facto de conduzires centenas de automóveis cedidos pelas marcas ao ano faz com que o teu desempenho e a condução melhorem, apesar de não os guiares dentro do âmbito do desporto automóvel?
Costumo dizer que a experiência em competição sempre ajuda na condução diária, mas que há coisas da estrada que também levamos para a pista. É tudo uma questão psico-motora, e todas as experiências mesclam-se para, num dado momento, teres a reação certa perante um determinado estímulo. Sinto isso naquelas frações de segundo em que, no limite, mantenho o controlo do carro graças à ‘bagagem’ acumulada com todo o tipo de automóveis. E não esqueçamos que a rapidez por volta começa pela ausência de erros.

CarZoom: Qual foi o automóvel de estrada que mais gostaste de conduzir até hoje? Tens algum que seja para ti o mais desafiante ou o mais divertido?
O Porsche 918 Spyder foi de longe aquele que mais gozo me deu. Pela tecnologia, pela aceleração, pelo som e pela capacidade de curvar e travar que tem. É daqueles superdesportivos que nos permite estender um pouco mais os nossos próprios limites.
Mas não é preciso de ir tão longe. Há modelos mais simples e despretensiosos que me dão mais prazer de conduzir que muitos pseudodesportivos. Tudo se resume a características intrínsecas e à experiência que proporcionam. A nova geração de automóveis é muito eficaz, confortável e eficiente, mas a maior parte é desprovida de feeling. Indo ao pormenor, as sensações dos comandos (direção, caixa, travagem) e do chassis são demasiado filtradas, e torna-se difícil definir o caráter de cada modelo. A crescente partilha de plataformas mecânicas e tecnológicas levou a este estado de coisas. São todos muito bons e velozes, mas começa a faltar temperamento e individualidade, coisas que ainda encontramos em ‘clássicos recentes’, da década de ’90.

CarZoom: Qual foi o episódio mais caricato que tiveste no mundo do automobilismo?
Tive tantos… Mas um que me marcou foi numa prova do MINI Challenge España, disputada no Estoril. Uma hora antes da formação da grelha estava tudo pronto, menos as rodas montadas. Falei com os mecânicos umas duas vezes, que me disseram para estar “tranquilo”… O problema é que quando o pit lane abriu, o meu carro ainda não tinha rodas e não havia mecânicos na boxe! Confesso que não tenho bom feitio nestas coisas e comecei aos berros, mas foi em vão. Tive de arrancar de último, da linha de boxes. Fiz uma corrida de raiva, com muitas ultrapassagens, e terminei em oitavo.

CarZoom: Como jornalista da imprensa automóvel qual é o teu maior desafio?
Sair da minha zona de conforto, mesmo que dentro da área automóvel. Ou seja, ter de fazer um artigo ou uma peça que não seja um ensaio, a apresentação de um novo modelo ou uma reportagem de competição. É sempre uma oportunidade para aprender, procurar novas abordagens e ganhar novas experiências.

CarZoom: Tens planos para um futuro próximo no mundo da competição?
Eu estou sempre a tentar montar o meu projeto, e é uma luta diária, devido à dificuldade em conseguir apoios.
Quando divides o carro com outro piloto – em que haja duas corridas por jornada –, isso não permite que sejas tão competitivo quanto outros que correm sozinhos. Passas metade do tempo ao volante e não evoluis ao mesmo ritmo, porque a rodagem faz sempre falta. Foi o que me aconteceu nas últimas temporadas. Por isso, gostaria de regressar num projeto ‘a solo’ e no Super Seven by Toyo Tires. Apenas fiz uma época completa, o carro dá enorme prazer de pilotar, os custos são controlados e sinto que deveria de ter obtido melhores resultados nesse troféu.

CarZoom: Qual é para ti a maior dificuldade no mundo da competição?
Obter apoios, sem dúvida. Como jornalista, sobretudo de televisão, pensar-se-ia que seria mais fácil estabelecer parcerias e conseguir patrocínios que permitissem levar projetos avante. Não é a realidade.
Não haja engano: à parte da paixão, a competição é um negócio para todos os envolvidos, pilotos incluídos. Pois quem não tem bolsos recheados tem de ir à procura de patrocínios, e essa é uma atividade muito ingrata e desgastante. Acrescenta-se que é um meio cheio de movimentos de bastidores (para o bem e para o mal) e os contactos pessoais são importantes. É tão difícil de entrar como de ser, depois, bem-sucedido. O esforço é sempre recompensado. Tanto pelo gozo de pilotar e competir, como pelas relações pessoais. Tenho feito boas amizades nas corridas.

CarZoom: De que forma se podia diminuir a taxa de sinistralidade nas estradas?
Não há uma resposta curta e direta, e não venham culpar apenas a velocidade, que isso é demasiado redutor e politicamente conveniente. Naturalmente, os excessos e as distrações são tóxicos para a segurança, mas vejo tanta asneira provocada por condutores que não fazem a mínima ideia do que estão a fazer na via pública. E nada tem a ver com velocidade. Por isso, comecem pela formação, com maior ênfase na condução em autoestrada, à noite e em condições de chuva, para, numa fase mais avançada, haver exercícios de desvio de obstáculos e travagens de emergência. Em Portugal continua-se a ensinar somente a passar no exame em vez de formar condutores conscientes e competentes. E tenho três jovens exemplos lá em casa. Sei que sou um idealista nesta matéria, porque nenhuma escola de condução está preparada para um grau de ensino ao nível de uma academia. Mas se teoria é importante, a prática é mais. Campanhas de sensibilização, controlos, vigilância, tudo serve para aumentar a consciência dos perigos, mas nada bate o bom-senso e atenção na estrada.

Nenhuma das fotos anterior é da autoria da CarZoom

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